Número 16

11 de Dezembro de 2021

PAIS E MÃES PARA FILHAS E FILHOS

Fubar generation

DR. PICHÓN R

Mariana Barros Silvestre entrevista o dr. Pichón R. | T2 E6

Onde o dr. Pichón R. fala de um livro que anda a ler, Mundo Belo, Onde Estás, da Relógio D’Água, 2021

— Boa tarde a todos os ouvintes da Rádio Osso, a emissora da revista sem linha editorial. Estamos com o nosso convidado habitual, o dr. Pichón R., psiquiatra argentino a viver em Portugal desde 1977. Eu sou Mariana Barros Silvestre e o tema de hoje é a literatura geracional. Boa tarde, Enrique. Anda então a ler um livro entusiasmante?

— Ando a ler um livro que me está, como direi, a impressionar muito. Trata-se do último romance de Sally Rooney, que antes escreveu Conversas com Amigos (2017) e Normal People (2018).

— Normal People deu uma série da BBC Three e da Hulu, e o meu namorado gostou muito.

— A personagem principal chama-se Marianne. Ele disse-lhe?

— Oh, não. Nunca diz tudo. Entusiasmou-se com a atriz inglesa, a Daisy Edgar-Jones. O que disse mesmo foi que a série era melhor do que o livro, mas isso parece-me o género de comentários que toda a gente faz, sobretudo quem não leu o livro, ou só o folheou na livraria.

— Sally Rooney é uma das escritoras geralmente identificadas com os Millenials. Talvez a Mariana saiba precisar melhor do que eu quem são os Millenials…

— A Geração do Milénio, também conhecida por Geração Y or Gen Y, é a coorte demográfica que se segue à Geração X. (Mariana, recitando) Os Millenials são tipicamente definidos como a geração das pessoas nascidas entre o início dos anos 80 e meados dos anos 90. A maior parte dos Millennials são, ainda, filhos dos baby-boomers e pais da Geração Alpha, a primeira a ter nascido inteiramente no século XXI.

— É também a geração da Internet, não?

— A geração mais típica da Internet é a seguinte, a geração Z, a snapchat generation, os zoomers, nascidos desde meados dos anos 90 até início dos anos 10. Aqueles a quem chamam os nativo digitais, porque desde o nascimento se familiarizaram com os tablets, smartphones, a tecnologia digital. Mas a geração X, sim, o Enrique tem razão, apropriou-se rapidamente e com facilidade da rede.

(o dr. Pichón em tom de quem comenta para si próprio) — Estava convencido que os Millenials também partilhavam a app Snapchat. (continuando) — Obrigado, na mesma. Tenho uma amiga espanhola que diz que a sua geração dá pelo nome de Millenial porque, por mais que se esforcem, os seus membros não conseguem ganhar mais de mil euros. (risos. O dr Pichón continua) — Eu li e segui atentamente a série Normal People, que passou no confinamento. Este livro, de que agora falo, mantém algumas das características formais dos anteriores. A concisão das frases, a alternância da narrativa na terceira pessoa e de fragmentos de mensagens de texto, WhatsApp, mails, registos de diários… Os personagens pesquisam continuamente no Google, alardeiam uma cultura de wikipedia, trocam direções usando o Google map…

— Estão continuamente a “ser notificados”!? (Mariana rindo)

— Tal qual. Estas pessoas nasceram no início da década de 90, como Sally Rooney, e são então da geração Y, tal qual a Mariana explicou. São brancos, irlandeses, ou nasceram na República da Irlanda, têm profissões precárias, muitas vezes ligadas à cultura, com mais ou menos prestígio ou êxito. As relações entre eles são… interessantes.

— Interessantes?

— Verá que esta palavra é importante no desenvolvimento deste tempo de emissão que nos é reservado. (Enrique faz uma pausa como se quisesse decorar a palavra, e prossegue) — A conheceu B pelo Tinder. C e D são amigos da juventude e oscilam entre o companheirismo e a paixão. Quando se reúnem, nunca sabemos exatamente o que sentem. E isto não é apenas produto de um artifício narrativo. É porque, de facto, muitas vezes eles não sabem mesmo o que pensar ou o que sentir.

— Como assim?

— Nas palavras do narrador de Mundo Belo… (o dr. Pixón pergunta, com os olhos, se pode ler e procura uma frase sublinhada, a meio do livro) “a conversa parecia ter provocado um certo efeito neles, mas era impossível decifrar a natureza desse efeito, o seu significado, como eles se sentiam nesse instante, quer fosse algo partilhado por ambos, quer o sentissem de forma diferente.” E em seguida: “talvez não se conhecessem a si próprios e essas fossem questões sem respostas fixas, e o processo de criação de significado ainda estivesse a decorrer.”

— Ai! gosto muito dessa ideia! (Repete, enfática) — O processo de criação de significado ainda estivesse a decorrer

— Foi assim que li a maior parte deste livro. Como um profundo e genuíno depoimento geracional. De uma geração que se reconhece em si – diria Lukács…


— Um pensador do seu tempo, esse Lukács? (interrompe Mariana)

— Exatamente, do meu tempo. (o dr. Pichón deixa escapar um sorriso) Uma geração que se deixa conhecer, que percebe a sua situação objetiva, mas que não percebe o que significa a sua diferença. Porque, tal como a entidade de Lukács antes de ter consciência de geração para si, não sabe para onde vai, não tem destino, projeto comum, identidade.

— Identidade? Não tem identidade? Tem múltiplas identidades, creio eu. No seu interior surgiram múltiplas identidades. Os LGBQTIA+’s, as pessoas Autistas, os afrodescendentes, os novos crentes, …

— Diria que isso aconteceu às gerações anteriores. Eles podem ser isso tudo e reconhecer a sua diferença. Mas não a sentem como uma identidade.

— Subtil… (refletindo) Mas curioso.

— É Alice, a propósito da sua sexualidade, quem o afirma: “sei que sou bissexual, mas não me sinto ligada a isso enquanto identidade – ou seja, não me parece que tenha algo de especial em comum com outras pessoas bissexuais”.

— Ou será que se encontram num momento anterior ao significado? Ainda não pararam para categorizar, nomear, hierarquizar os sentimentos, as atitudes, as orientações? (enquanto diz isto, Mariana percebe e exprime uma discordância) —Não compreendo o que isto possa ter de geracional. A vida é um processo de criação de significado em todos os momentos, ou vá, em muitos momentos. Pensamos pouco nestas coisas. Pensamos pouco. (em tom mais ligeiro, num desabafo) — Atafulhamos a vida com múltiplas ocupações para não dar espaço às questões mais profundas. (e depois de uma pausa) — Será isto geracional?

— O que escrevem sobre a sexualidade é significativo. (Pichón parece não a ter ouvido e prossegue) — Alice acha muito limitativa a terminologia da sexualidade. “Não há palavras para transmitir a amplitude de sentimentos e emoções que a sexualidade transporta”, escreve ela, depois de refletir sobre o que é “o teor sexual de uma relação”.

— É a sua opinião, Enrique? Partilha dessa ideia?

— Mariana, não conte comigo para lhe responder a isso. Eu apenas ouço. O que Alice diz é que sabe quando uma relação tem um teor sexual, sem que, forçosamente se sinta, ou imagine, sexualmente envolvida com essa pessoa. E que se isso é assim, então a sexualidade é alguma coisa exterior ao ato sexual, em si.

— Ela diz mesmo isso? O ato sexual, em si? (Mariana sublinha com dramatismo)

— Sim, acho que sim… Não tenho a certeza… (o dr. Pichón parece confuso e antes de confirmar procura a página 89 da edição portuguesa da Relógio de Água, que tem sublinhada)

— Mas eu não sei o que é um ato sexual em si, Enrique. O que justamente me parece relevante é o facto do ato sexual não existir em si, independentemente dos que nele estão envolvidos, dos seus sentimentos, da circunstância, do seu corpo, morfologia, tipo pele e fâneros, secreções, cheiros, marcas, da segurança que têm, da confiança, das experiências anteriores, da capacidade de se animalizarem, abandonarem, como dizem…

— Sim, percebo-a. (não sabe porquê, mas interrompe-a) — Acho que também tem razão. (pausa) E interrogo-me sobre como pode ser tão sábia, Mariana?

— Eu sou uma mulher da geração Millenial, Enrique. Os meus pais e os meus avós deitaram-se no sofá do doutor Freud. E começaram a charrar-se. Nós… nós fodemos mesmo.

— Precisamente, Mariana. Deitamo-nos demasiado nos sofás do doutor Freud. Eu, pela parte que me toca, sentei-me à cabeceira. A ouvir. A tentar interpretar. Neste aspeto, podemos dizer que abrimos caminho para que vocês… percebessem melhor.  Pois este livro tenta precisamente unir uma reflexão sobre o sexo, à descrição clínica de vários encontros amorosos. E qual é a solução narrativa?

— Deixe-me adivinhar… A pesquisa de um léxico novo para os encontros?

— A utilização de uma descrição de script cinematográfico. Entrecortada por descrições do ambiente. Infelizmente, o que fazem já foi descrito vezes sem conta. (citando, falsamente entediado) — Arquejou, gemeu, suspirou, introduziu, penetrou. Nada que Emma Bovary ou Anna Karenina não tivessem feito.

— Estou a ver. (Mariana, pensativa) — E depois?

— Depois?

— Depois de foderem? O que dizem? O que fazem?

— Ah, depende (o dr. Pichón surpreendido) — Bebem água. Deixam-se ficar completamente imóveis, descansando um sobre o outro. Zangam-se. Uma das vezes, um deles, entrou em outro quarto e fechou a porta atras de si. E alguém, o narrador?, uma das vozes do livro ?, um dos habitantes dessa noite na casa?, pensa: “E se no silêncio e solidão do seu quarto ele se ajoelhar nas tábuas do soalho, estará a rezar? “

— Agora sou eu quem constata a atualidade de Madame Bovary. (com ar de gozo)

— Apesar da sua importância, a sexualidade é sempre descrita como fazendo parte da trivialidade da vida. Em oposição às coisas sérias: o colapso da civilização ou a vida e morte de Jesus.

— Um paradoxo. A sexualidade é a outra coisa que pode ou não estar presente nos encontros físicos, que transcende a fisicalidade, para a qual não há ainda a linguagem adequada. E, no entanto, segundo diz, faz parte da trivialidade da vida.

— Sim é um paradoxo. (solene) — O grande paradoxo. Eles interrogam-se sobre se vale a pena gastar tanta energia na sexualidade quando deveriam fazê-lo a “reorganizar os recursos do mundo e a fazer a transição coletiva para um modelo económico sustentável”.

— E a resposta é a sexualidade.

— A resposta é dada por Eileen quando escreve “In fact it’s the very reason I root for us to survive – because we are so stupid about each other.” Traduzido assim : “a razão para sobrevivermos é precisamente esta. Gostarmos tanto uns dos outros e acharmo-nos deveras interessantes.” (risos)

— Isso parece bem otimista.

— Sim, o livro lê-se também como uma suave mensagem de otimismo.

Desenvolve, por exemplo, uma reflexão sobre o belo. As duas mulheres são claramente belas. Simon deve ser bem bonito. A beleza é associada à juventude. Simon tem namoradas jovens, e Eileen, que não tem trinta anos, tem ciúmes delas, por serem “muito mais novas”. Felix, que algumas vezes parece o Visitante de Teorema, de Pasolini, é mais baixo e compacto.

— Teorema, de Pasolini? Que filme é esse?

— O sexto filme de Pasolini, e o primeiro em que ele utiliza atores profissionais. O Visitante, cujo nome, ao que me lembro, nunca é nomeado, é Terence Stamp. Diz-lhe alguma coisa?

— Não é o velhote dos filmes do Tim Burton?

— Bom, (o dr. Pichón pigarreia) — Em 1968 era o anjo silencioso que irrompia numa família da alta burguesia italiana e dormia com toda a gente, da piedosa governanta à tímida filha.

— Escapou o pai?

— Não me tente, Mariana. Não serei spoiler, mesmo que garanta que ninguém nos ouve.

— Nunca disse que ninguém nos ouvia. (Mariana olha para o relógio e fica subitamente muito profissional) — Quer fazer alguma… nota final, dr. Pichón? (e arrepende-se imediatamente da frase que lhe saiu automaticamente e da forma de tratamento que usou. O dr. Pichón reflete e acaba, com tom grave e cansado)

— Estes jovens adultos destes livros não têm filhos e não são próximos dos pais. De forma que os livros são notavelmente geracionais, como tenho vindo a dizer e repito. De vez em quando aparece um pai. Mas é sempre alguém toscamente caracterizado, sem grandes preocupações de profundidade. Os pais, velhos ou quase velhos, encontram-se confusos, sozinhos, doentes, entregues às suas idiossincrasias e ou excentricidades. (como se concluísse) — De facto, os velhos são inomináveis, inexistentes, em Sally Rooney. (a intensidade das falas diminui e entra o indicativo do programa, primeiro como ruído de fundo, depois ocultando o diálogo, até ficar a ouvir-se sozinho)

— O senhor é quase o último velho com voz, nas ondas da Rádio Osso, dr. Pichón.

— Mas voz escutada por quem, Mariana?

— Eu ouço-o. E…

— Já sei. O seu namorado também.