Número 9

24 de Julho de 2021

POESIA

Até ao osso

ANA PAULA INÁCIO

Vamos imaginar que o bode é consciencioso

e a hiena cínica.

Vamos imaginar que eu sou o bode e tu a hiena.

Vamos imaginar que decidimos trocar de pele

não como exercício linguístico ou ético

sequer metáfora amorosa

nem cobertor de colono americano oferecido a índio

mas como quem troca de camisa ou de galhardete.

Eu fico então cínico e quando os demais vierem golpear-me com as suas culpas

rir-me-ei com uma excitação incontida

que os fará recolherem-se com medo de que o meu riso os denuncie

e que o meu cinismo seja uma sintomatologia do final dos tempos.

Tu, por tua vez, ficarás conscienciosa e todo o animal doente

que te cair no dente saberá a matéria oportunista

e a troféu imerecido e quererás limpar o focinho em erva doce

o que só te deixará um amargor de boca.

Talvez o mundo fique melhor

regressados assim a La Fontaine e à sua língua

que nos lamberá como selos ou bezerros

pelo que continuaremos a trocar de pele

eivados dessa ingénua esperança

até que a carne absorva os nossos sinais contrários e finalmente os ossos

que doaremos à ciência para que os estude ou roa

que é ofício digestivo similar

de quem nos arrancou a alma à proveta.