O sufoco
Pouco importa o que eu pense ou faça, a minha consciência desse facto apenas se intensifica cada vez mais, e um dia será tão grande que isso, a consciência disso, vai-me matar.* Parto para esta nova sequência embuído de uma consciência letárgica. Duvidando do rigor desta concepção, já que a letargia implica, segundo as várias […]
MICRO ONDAS
Ele diz que tem um segredo que lhe atravessa o rosto como um corte invisível. Ele diz que transporta um segredo como uma vara com um balde pendente de cada lado que são duas pernas abertas onde pode mergulhar a cabeça ou simplesmente emergir. Cada balde leva 10 litros de água. 1 litro de água […]
Mundanices
O sangue dos outros Morticia moribunda A Primavera, finalmente, chegou. Despontam as folhas da minha faia sanguínea. Não nascem verdes. Brotam como mortas fora de estação. Que confusão esta, a dos equinócios. Desperta na mente humana a ideia sórdida que nascer requer sacrifício. Conta-nos Igor Stravinsky que na Rússia pagã, uma bailarina dança até à […]
RETÁBULOS (excertos)
Advento Quando a espera é a ausência em que ressuma a promessa da enchente que a revela Catecismo Severo o rosto erecta gravemente adorada das mãos uma alça a saia e a outra acaricia a nuca do donzel aos seus pés ajoelhado Ordenação Descinge o cavaleiro as armas junto ao leito para adorar a amada […]
Osso Vinte e Dois
COLABORAM NESTE NÚMERO Rui Vitorino Santos | Primeira página | Desenho Luís Januário | A betoneira de Bencanta | Polina Semionova Zhemchuzhina Ostraliana | Três tempos Andreia M. Silva | Caixa Alta | Pedro Medeiros “A fotografia tem que ser sinónimo de liberdade” Hélio Barata | Mercado de futuros | Tábua de matérias Frederico Martinho […]
é mais fácil ordenar estes pontos, do que ordenar ao coração o que sentir
Terá sido suicídio?
Do ponto em que se encontrava, Alice não podia reconhecer a pessoa que jazia na pequena e estreita rua paralela à via principal, mas, quando conseguiu aproximar-se soube logo tratar-se do sr. Fonseca, uma vez que qualquer que fosse o tecido, textura ou padrão do fato que envergasse, sempre muito aprumado, nunca ninguém no bairro […]
65-43-JM
A tua última viagem poderá ser o meu primeiro regresso. Não sei quem conduz quem. Há em nós uma dança imperceptível, os dois imobilizados no ponto de embraiagem perfeito, os dois articulando, a cada curva desfeita, os acordes dos gestos que nos afastam e nos aproximam das paisagens imprevistas, dos percursos dos dias, em trânsito, […]
O fulgor extingue-se
O fulgor esmorece paulatino. O tempo inscreve-se na carne lavrando a cheio os mapas onde se espraia a felicidade deixada aberta a fímbria do riacho por onde escorre o travo amargo da perda. Da beleza fulgente da flor sobejam ténues laivos do amor que a acalentou e as cicatrizes fundas que não soube cerzir.