Convém que alguém trema

(Onde Madalena surpreende os ouvintes com o conhecimento do passado do Dr. Pichón Rivière e quase faz um dueto em torno da evocação de Alejandra Pizarnik) (Ouve-se Piazzolla durante algum tempo. Depois, Madalena Zuarte lê, primeiro em castelhano e depois em português, o poema La Celeste Silenciosa al Borde del Pantano) La Celeste Silenciosa al […]

SOUTHERN NOIR: III. Conclusão

A único epílogo possível é o contrário de todas as possibilidades, a vida para além de todas as mortes, o senso comum roubado a si mesmo, uma rendição. Descobre-se o criminoso mas nunca se segura um crime. Um crime é sempre outro, opera continuamente noutra estrada. Regressamos, no entanto, a qualquer coisa: um braço? Ficou, […]

Para que não se morra no subúrbio de uma palavra

Sou novo por aqui, neste lugar que é a escrita. Ainda não sei responder quando me perguntam: porquê? Escondo as mãos entre os joelhos ou desvio os olhos num arco de lua. * Nos últimos dias não me apeteceu escrever porque não tive o tempo necessário para sofrer. Troquei uma cidade por outra um pouco […]

José Craveiro: Viver para contar

Naquela manhã, sentaram-se todas à mesa: a Laurinha, dona da mercearia que tocava violão em noites de baile na aldeia; a Violina “Marreca”, que ficou vergada aos seis anos, mas que sempre trabalhou para se sustentar a si e à irmã. Ou a Piedade, mulher do campo, a quem José Craveiro, último contador de histórias […]

O tempo das máquinas

Vivemos no tempo das máquinas. E esse tempo não é do ferro, do vapor e de todos os cheiros de enxofre, de apitos e gordos parafusos. Não é o tempo do metal e da eletricidade, mas sim o tempo do digital. O que é, afinal, uma máquina digital? Uma máquina sem corpo? Uma máquina que […]

Escritores, escritores e leitores

Um murmúrio percorreu a sala da Comunidade de leitores.A que tu pertences, “You! hypocrite lecteur! —mon semblable, mon frère“ Estava presente um Escritor.Falo de um tempo em que quase não há leitores. Há sobretudo escritores. Muitos escritores. E alguns raros Escritores. As livrarias estão cheias de novíssimas edições. As bibliotecas, desertas, abarrotam de livros. Se […]

SOUTHERN NOIR: INTRODUÇÃO E ENREDO (TO BE CONTINUED)

I. Introdução Um policial deve começar pelo paroxismo do acto, o movimento de facadas repetidas e convulsivas: espasmos, o revirar de olhos (imagens de rostos em anonimato), a estimulação dos próprios ogãos (mesmo os sexuais), pagamentos feitos a dinheiro vivo (yuan e dollares). Em silêncio, partimos de um sítio específico, um marco na estrada. Eu […]

Baixo-Ventre (poema interseccionista)

1. BaixoRente ao chão virado para o chão RasoOs olhos depois da notícia Raso ChãoSalto-rasoAlta mas quase descalça BaixoA mais grave das vozesO lugar dos baixos no CoroO escuro é a metade da zebra BaixoA classe baixaA classe altaIgnóbil O golpe baixoO baixo-alemãoLe plat paysCom os vagos rochedos que as marés cobremonde o coração nunca […]

Do cansaço à cegueira

A escrita nunca foi o forte do capitalismo. O capitalismo é profundamente analfabeto (1). O capitalismo é profundamente analfabeto, recupera Mark Fisher em Realismo Capitalista – Não Haverá Alternativa?,  suicidando-se sem resposta, provavelmente ciente do abismo. Ainda estou eu a descobrir que o amanhã depende da conjugação das palavras e já foi anunciado o cancelamento […]